por Caio Teixeira

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Para inaugurar a nova fase da nossa newsletter, decidimos falar sobre um assunto às vezes importante – geralmente quando um podcaster está tentando vender anúncios a um cliente desinformado -, às vezes completamente esquecido: o rankings dos podcasts mais ouvidos do iTunes (ou Apple Podcasts, dependendo do seu bom-humor com a empresa).

 

Caso você não saiba sobre o que estou falando:

Esta lista já foi a Meca para muitos podcasts nos últimos anos, para centenas de outros continua sendo. É por ela que novos podcasts são descobertos, ouvintes iniciantes são apresentados a shows diferentes e onde marketeiros/publicitários/clientes novatos no mercado vão buscar oportunidades de investimento. Mas tal qual uma religião, ninguém faz ideia de como isso funciona exatamente - apenas a Apple, talvez…

De qualquer maneira, sempre se discutiu como fazer para figurar no Top 200 da Apple. “Mas por que o da Apple é tão importante?”, bem, além de historicamente existir há muito tempo, boa parte dos agregadores de podcasts puxam suas listas diretamente do Apple Podcasts, quase que uniformizando uma lista de melhores podcasts mundiais. Então entender como funciona a lista tradicional ajudaria um produtor a aparecer em outras centenas de listas (com a chegada do Spotify na parada isso pode mudar, mas é assunto para outra newsletter).

Então sempre foi aquela coisa: “Não esqueça de assinar o podcasts e deixar um review para nós!” em muitos episódios. Afinal, muitos pensavam que o algoritmo da Apple deveria ser uma junção de downloads + assinantes + reviews de alguma forma.

Bom, os últimos meses têm provado que não é bem por aí.

 

O que há por trás do algoritmo

Em fevereiro deste ano, o Discover Pods já levantava a bandeira da possibilidade de ludibriar o sistema da Apple. Já em maio foi a vez do PodNews falar de uma companhia que anunciava ser capaz de colocar qualquer podcast no Top 10 por US$ 15 mil/mês. Mas como? Tá certo que a quantia desta empresa em específico é alta o suficiente para contratar um exército de pessoas para assinar podcasts o dia inteiro, deixar um review positivo e baixar alguns episódios, assim inflando a base. Mas como eles podem garantir que isso é o suficiente?

E assim ficamos por meses, com criadores de conteúdo voltando a debater a validade da lista da Apple, tentando entender como ela funciona e esperando alguma resposta da empresa. Plataformas como o Fiverr (onde pessoas anunciam serviços diversos) estavam lotadas de anúncios de “podcast boosting” e não faltavam podcasters achando que as fazendas de clicks que estavam por trás disso tudo.

Só em setembro que a discussão voltou a esquentar quando @Lime_Link postou um vídeo comparando alguns dados interessantes entre o agregador CastBox e o ranking da Apple, mostrando como aparentemente reviews e downloads não fazem a menor diferença para um podcast entrar na lista.

O que muitos especialistas da área já apostavam e que agora começa a ficar mais claro, é que o ranking da Apple é baseado apenas na quantidade de novos assinantes nos últimos 7 dias. Não tem nada com downloads, com reviews positivos, com recomendações, nada. E vamos além, aparentemente a lista nem leva em consideração quantos assinantes o podcast perdeu no mesmo período, ele só considera quem entrou.

Com um sistema desse é relativamente fácil de jogar um podcast para o topo da lista. No começo de outubro, o Business Insider relatou o alto índice de possível manipulação do ranking, mas como Nicholas Quah, do Hot Pod, falou sobre como “é difícil conseguir uma declaração de grandes produtoras de podcasts sobre o assunto, já que querem manter uma boa relação com a Apple.”

Enquanto isso, a empresa não faz nenhum posicionamento real sobre o assunto. Aparentemente o algoritmo foi atualizado e a situação normalizou um pouco.

“Mas por que, raios, você tomou todo o meu tempo para falar disso, Teixeira?” Porque precisamos ter uma relação mais inteligente com a plataforma. Que ela não é perfeita já é um fato, mas se este nível de manipulação for comprovado, fica claro que usá-la como parâmetro de sucesso é um erro crasso. Seja na hora de ficar feliz com o seu show, seja na hora de tentar vender seu peixe para algum cliente.

Veja bem, usuários novatos ainda utilizarão ela porque é fácil. E facilidade quase sempre atropela honestidade. Mas se os produtores, os principais envolvidos e afetados por esse tipo de coisa, não tomarem conhecimento e rédeas da situação, em pouco tempo a prática de pagar para fazendas de clicks darem boost nos programas se torna a norma. E, para variar, quem se dará bem não é o melhor, mas quem tem mais dinheiro.


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