“Luiz Gonzaga,” faz parte da seleta lista de artistas, cujo a história, transcende a arte. Ele, ecoou o lamento de um povo, que até então, não era ouvido.

Conheça a incrível história do “Rei do Baião.”

 

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Transcrição do Episódio

Olá, sejam bem-vindos ao Clube e esse, é o episódio 16 da segunda temporada.
O Clube, agora também, faz parte do “Overcast,” uma rede de podcasts, que foge do padrão da podosfera, com programas de formatos diferentes e inovadores. Conheça: overcast.com.br
O Norte, cara… a música do Norte, tem magia, né? Olha, eu nem precisei refletir muito para notar que o lamento, se transforma em oração e logo, pra se transformar em canção, só falta o acompanhamento. E lá no Norte, tinha a zabumba, o triângulo e claro, a sanfona. No episódio extra, “A História da Música,” eu ousei contar essa história. Foi super resumido, mas passei rapidamente, por essa fase da sanfona, que agora, vou dar uma detalhada pra você.
O acordeom, foi desenvolvido e refinado por alemães, assim como eu conto, lá no episódio extra, mas vale lembrar, que ele, foi inspirado no “Cheng,” um instrumento primitivo chinês. No Brasil, o acordeom, chegou trazido por imigrantes europeus, que desembarcaram na região Sudeste e logo, se espalhou pelo país. Os gaúchos, o chamaram de “gaita;” já os nordestinos, criativos como sempre, inventaram talvez, o nome mais popular desse instrumento… a “sanfona.”
Luiz Gonzaga,” é simplesmente, a maior referência da sanfona. Ele, ficou conhecido como “o rei do baião. Na casa de seu pai, nunca faltou sanfona para transformar os lamentos em canções, mas, faltava água e às vezes, até comida. “Ó Deus, desculpa esse pobre coitado, que não deve ter rezado direito, ao te pedir para chover aqui no sertão.”
O Lamento no sertão, é sincero e essa mistura, já sabemos o que dá, né? Ela, é como “blues” e deu em música… música boa. Nossa música de lamento mais autêntica, é o forró… é o baião, lá, de Luiz Gonzaga.
Mas, antes de arregaçar as mangas e contar essa linda história, preciso deixar alguns recados.
Tudo o que é narrado nesse podcast, é posteriormente, completado com vídeos, fotos e informações extras, nas redes sociais. O Clube, está no Twitter, no YouTube, No Facebook e no Instagram. E só de nos acompanhar, você, já passa a fazer parte desse Clube.
E também, todas as músicas que serão tocadas nesse episódio, você poderá ouvi-las em uma playlist exclusiva, no Spotify e em breve, também no Deezer.
Esse podcast, que chega até você, limpinho, bonitinho, cheirosinho, foi feito por mim e pelo Cocão. Nós temos uma missão, que é, espalhar boas histórias sobre as músicas que amamos e para que essa ideia não morra, você pode nos apoiar, sendo um sócio do Clube. Acesse: clubedamusicaautoral.com.br/assine
Daí, você aproveita e dá uma navegada no nosso site. Deixe um comentário, pois, no final dessa temporada, vai rolar um episódio extra e vamos ler as melhores mensagens.
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E é isso, homi, seu menino… eu tenho um grande amigo, lá na Bahia, que é o “Antonio Petersen,” um grande abraço pra ele. E o sotaque dele, muitas vezes me influencia. Esse sotaque do Norte, ele é bonito, ele é gostoso de se ouvir, né? O meu “sotacão” aqui do interior, não me permite fazer os trejeitos, mas tô treinando o “cantado” do nordeste. Chame painho, chame mainha, por que vamos lembrar de Luiz… com respeito e sem ser vago. Oxe menino, toca essa vinheta aí, cabra da peste!
Numa quinta-feira, de 1939, mais um nordestino, chegava ao Rio de Janeiro, em busca de um sonho bem básico… a sobrevivência. Os ônibus, chegavam lotados de pessoas e bagagens; alguns traziam a família toda, mas a grande maioria, eram homens sós, testando a própria sorte.
Luiz Gonzaga, era mais um desses homens, que chegou de forma discreta. Ele trouxe em sua mala, documentos, uma foto da família e meia dúzia de peças de roupas. Mas um objeto à tira colo, chamava a atenção, uma sanfona. Sim, um acordeom.
Luiz, sabia que precisaria ralar para sobreviver na cidade maravilhosa, mas, trazia uma carta na manga. Como músico, Luiz ,havia aprendido tocar clássicos da música erudita e seus ritmos preferidos, eram a valsa e o tango.
No Rio de Janeiro, Luiz, foi morar em uma pensão só para homens e assim que fez amizade e começou a tocar, foi levado para a “zona,” sim, casas de prostituição.
Luiz, não tinha salário, mas, ele tocava de mesa em mesa e as gorjetas, podiam ficar com ele. Foi em uma dessas casas, que Luiz, conheceu e se apaixonou por Léia, uma moça fina, refinada e branca. Seus amigos, diziam que ele, jamais teria chances com ela, pois, era uma das damas mais requisitadas da casa e Luiz, muitas vezes, ia dormir com fome, pois o dinheiro que ele ganhava, era muito pouco.
Para livrar o almoço, Luiz, tocava sua sanfona em restaurantes. Ele, dedilhava melodias refinadas na sanfona, pois imaginava, que deveria agradar a elite carioca, mas, muitas vezes, acabava sendo expulso dos restaurantes. Luiz, chegou a passar fome no Rio e até dormir na rua. Isso, não era uma exclusividade dele não, era a realidade da maioria dos nordestinos, que chegavam aqui, no Sudeste.
Luiz, frequentava programas de auditório como calouro. Já era até uma figurinha carimbada, no programa de “Ary Barroso.”
Um belo dia, Luiz, foi questionado:
– Hey cara, você não é do Norte?
– Sim, sou de “Exu,” interior de Pernambuco.
– Oxe, então toca uma música do Norte aí pra gente! Onde já se viu, um cabeça-chata igual tu, fica aí, tocando essas músicas de rico!?
Luiz, pediu desculpas e disse, que não tocava mais músicas do Norte, mas, o cliente insistiu e lançou um desafio:
– Eu almoço aqui todo dia, quando você tocar uma música do Norte pra mim, o teu almoço, é por minha conta.
Naquela mesma noite, Luiz, que é filho de “Januário,” um antigo sanfoneiro, dos bailes pernambucanos, recordou aquilo que seu pai, o havia ensinado no pé de bode e que Luiz, até então, dava pouco valor. Se você não sabe, “pé de bode,” era o nome dado para a sanfona de 8 baixos, uma espécie de sanfona para iniciantes. Ela, é menorzinha, sabe?
No dia seguinte, na hora do almoço, como sempre fazia, Luiz, começou o percurso pelos bares e restaurantes. Botou seu prato vazio em cima da mesa, que era usado para recolher o dinheiro e começou a tocar, o antigo bolero; a valsa de sempre, mas quando Luiz, avistou aquele cliente do desafio, ele, puxou o fole, como se respirasse fundo e começou a tocar, a tal da música do Norte.
Logo, os clientes do restaurante, a maioria do Norte e a maioria também, longe de sua terra e de suas famílias, começaram a aplaudir Luiz e acompanhá-lo nas palmas. Naquele dia, Luiz, livrou o almoço da semana toda.
Luiz, que nunca foi bobo nem nada, pensou:
– Poxa vida, se é a música do Norte que esse povo quer ouvir, então, é o que eu vou tocar.
Mas vale lembrar, que era 1940. A tal música do Norte, que eu falo, não era essa belezura que conhecemos hoje não. Luiz Gonzaga, passou a refiná-la. Ele, voltou ao programa de auditório de Ary Barroso, mas dessa vez, não vestia mais aqueles tradicionais terninhos elegantes. Luiz, calçava sandálias e usava um chapéu de couro; vestimenta estranha para aquelas pessoas, mas, que trazia um conceito. Quem ouviu o episódio 15, sabe do que eu estou falando… conceito artístico.
Ary Barroso, como sempre, brincou com o calouro, tirou um sarro das roupas e perguntou, o que ele ia tocar dessa vez. Luiz anunciou:
– Hoje, vou tocar uma coisinha lá do Norte, que se chama: “Vira e Mexe.”
Vira e Mexe, foi um sucesso tão espontâneo e orgânico, que rendeu a Luiz, um contrato com a gravadora “RCA Victor.”
Vira e mexe, foi a primeira música que Luiz Gonzaga gravou. Essa que estamos ouvindo, é a versão original, de 1941.
Então, ele foi convidado para ser músico oficial da banda da rádio. Era o seu primeiro emprego formal, no Rio de Janeiro. Com o dinheiro do seu primeiro salário, o que ele fez? Comprou roupas finas, um perfuminho, ficou todo bonitão e foi ao encontro de Léia. Eles, começaram a namorar, e Luiz, queria tirá-la daquela vida. Léia, estava grávida, mas não havia contado isso para Luiz não. Com a insistência dele, a moça, fez uma proposta que mudou a vida de muita gente.
– “Luiz, se você me ama de verdade, vai assumir meu filho também, porquê, eu estou grávida.”
Luiz, era um baita de um machista, rústico do sertão, homi macho, grosso, que não admitia certas conversas. Ele, brigou com Léia. Dizem até, que ele a agrediu, mas alguns dias depois, Luiz voltou com um buquê de flores; pediu desculpas. Ele, já havia até alugado uma casa e disse:
– Léia, eu assumo o bebê e ele, vai ter o nome do Pai: “Luiz Gonzaga Júnior.”
Então combinaram, de nunca revelar a verdade ao garoto.
Alguns meses depois, nasceu “Gonzaguinha,” o filho de Luiz, que no futuro, veio a se tornar tão famoso quanto o pai.
Essa história, “podia” até acabar por aqui, que ela já seria sensacional, não é?
Olha, eu me emociono fácil com narrativas como essas, de pessoas que largam tudo e saem em busca de um sonho, mas, pra Luiz se dar bem como músico no Rio de Janeiro, centenas de milhares de outros músicos sonhadores, precisaram se dar mau. E eu, sou um deles. Apesar de não ter vindo do Norte, nem ter ido ao Rio de Janeiro, eu saí de “Novo Horizonte,” interior de São Paulo e fui sozinho para a capital, assim como o Luiz, levando, apenas minha mala de roupas e um contrabaixo nas costas. Desci do ônibus no Terminal Tietê, olhei aquele mar de gente e me apertei pela primeira vez no metrô, sentido Zona Sul e por lá, vivi por 15 anos. Eu sei o que é buscar um sonho e digo com propriedade… sempre valerá a pena correr atrás do seu sonho, pois, apesar de eu não ter ficado rico, nem famoso, nem nada, os meus sonhos, se ramificaram em outras conquistas, tão importantes pra mim, quanto as grandes conquistas de Luiz Gonzaga. O que nos separa, é uma questão técnica, que se chama, “talento.” Não quero dizer, que os meus talentos sejam desprezíveis, de forma alguma. O fato é, que os talentos de Luiz Gonzaga, que eram infinitamente maiores. E orgulhosamente, reconheço isso. E levanto um brinde, para todos nós, artistas anônimos, desse Brasilzão véio sem portera, que tentou, mas não conseguiu, “mai” vamo que vamo, porque o importante, é que músicos como Luiz Gonzaga, conseguiram e nos representam, até hoje.
Mas olha, a história da juventude de Luiz, não se resume só a isso não. Ele também, foi um ex-combatente de guerra. Você acredita nisso? E faço questão de voltar um pouco essa fita para recordar essa história.
Foi numa sexta-feira, dia 13 de dezembro, de 1912, numa casa de barro batido, na Fazenda Caiçara, povoado de Araripe, à 12km da área urbana do município de Exu, extremo noroeste do estado de Pernambuco, numa cidade localizada a 600 KM da capital, Recife, que nasceu Luiz Gonzaga do Nascimento.
Era para ter sido batizado com o nome de seu pai, “Januário,” mas na madrugada em que nasceu, seu pai, foi para o terreiro e viu uma estrela cadente muito luminosa, que o fez mudar de ideia. O nome “Luiz,” foi dado em homenagem a Santa Luzia e ao brilho, que Januário viu no céu naquela noite. “O menino, era iluminado,” dizia Januário.
Já adolescente, Luiz, conheceu “Nazarena” e começaram um relacionamento, assim, meio informal, sabe? Ela, era filha de um coroné, que não gostou nadica daquele namorico, afinal, Luiz era pobre; seu pai, era lavrador, tocava sanfona em bailes e consertava instrumentos. Segundo as tradições, apenas os homens dotados de bens, poderiam namorar as filhas dos coronéis, mas Luiz, era porreta; um belo dia, tomou um porre e foi tirar satisfação com o coroné, que por sua vez, percebeu que Luiz estava bêbado e ao invés de mandar seus capangas matarem o infeliz, resolveu dar uma chance. Foi até a casa dos pais de Luiz e deixou um recado bem claro:
– A única chance desse moleque insolente não morrer, é indo embora de Exu e nunca mais voltar. Amanhã de manhã, se ele ainda estiver por aqui, vai morrer.”
Seu pai, Januário, lhe deu uma bronca, sua mãe, Santana, CHOROU. Então Luiz, partiu para Fortaleza. Ele, mau tinha completado 18 anos.
Chegando na Capital, Luiz perambulou; chegou a dormir na rua, mas logo se alistou no Exército e foi morar no quartel. Lá, a vida era boa, em comparação com a realidade do sertão. Tinha cama, comida e ainda, lhe pagavam um salário, que Luiz, mandava para sua mãe. Em 1930, os soldados daquele quartel, foram designados para fazer frente ao movimento que depôs o presidente “Washington Luiz,” na famosa Revolução de 1930. Mas durante o comboio, Luiz perdeu seu coturno, então o general, ficou louco da vida, com a falta de atenção do infeliz e mandou prendê-lo e isso, acabou livrando Luiz dos confrontos, pois, estava são e salvo, na cadeia.
Luiz, ainda passou muitos anos no Exército, mas ele se orgulhava, de nunca ter dado um tiro sequer. Seu apelido, era “bico de lata,” pois, como era músico e animava os bailes dos quartéis, lhe deram a responsabilidade de tocar a corneta que anunciava o início das atividades no quartel.
Foi nessa época também, que surgiu o nome do qual, conhecemos a música de Luiz Gonzaga. Se liga nessa história…
Por volta de 1930, muitos trabalhadores britânicos, estavam no Nordeste, construindo as malhas ferroviárias. Além deles, também, soldados americanos, perambulavam por lá, pois, auxiliavam o Exército Brasileiro, em treinamentos de guerra. Muitos pracinhas que foram para a segunda guerra mundial, foram treinados nos quartéis do Nordeste.
Nos finais de semana, esses gringos, promoviam bailes fechados, apenas entre eles. Mas de vez em quando, quando queriam fazer aquela bagunça e tal, eles, botavam um cartaz na portaria, escrito “FOR ALL,” que traduzido do inglês, significa, “para todos.” Nessas festas, sempre tinham sanfoneiros, como Luiz Gonzaga, por exemplo, que animava o baile dos gringos, e aquele tipo de cartaz, em inglês, virou uma referência de festa boa e passou a ser copiado para outras festas, que nem se quer, envolvia os gringos. E assim, de forma espontânea, que a galera do Nordeste, passou a fazer uma tradução e uma pronúncia um pouco diferente e foram se adaptando, daí, “for all,” acabou virando… “Forró.” Legal, né? Eu adorei essa história.
Quando Luiz, foi dispensado do Exército, já em 1939, ele foi para o Rio de Janeiro e aqui, retomamos a nossa história.
Luiz, já havia gravado alguns compactos, mas ele, apenas tocava a sanfona. Um belo dia, ele resolveu cantar na rádio e o dirigente, um cara que era meio xenofóbico, ao ouvir aquela voz, carregada de sotaque nordestino, mandou parar tudo e despediu Luiz, alegando que como sanfoneiro, ele era mais ou menos, mas cantando, ele era terrível. para piorar, a letra que Luiz cantava, era despretensiosa e ofendeu também, o dirigente da rádio. Bom, ouçam vocês…
O emprego na rádio, não era vital para Luiz, pois seu baile na periferia carioca, já estava famoso; ele conseguia manter a família e ainda, sobrava uns trocos. Então, passou a se apresentar em outros programas de rádio. Em 1945, Luiz, gravou sua primeira música como cantor. Eles, a chamavam de “Mazurca.” Foi gravada em 78 rotações. Olha…
Luiz, se estabeleceu financeiramente, mas seu relacionamento com Léia, não ia nada bem. Ela, era cantora também e chegou a cantar nas boates, e queria acompanhar o marido nos bailes, mas Luiz, um baita mulherengo e machista pra caramba, nunca deixou que ela o acompanhasse e pior, jogava na cara, o passado dela. Luiz, na verdade, nunca foi um cara muito legal com a sua família. Eles acabaram se separando e Léia, voltou a trabalhar em boates, mas, ela entrou em depressão e pra piorar, pegou tuberculose. A baixa imunidade, acabou por lhe tirar a vida, em 1947.
Luiz, deixou seu filho Gonzaguinha, aos cuidados de seus compadres, que o haviam batizado. Ele, ficou muito abalado com a morte de Léia e depois de 16 anos, sem ver a família, resolveu voltar para a casa do pai, em Exu.
Essa volta, ele narra na canção, “Luiz Respeita Januário” e é sensacional! Conta você, vai Luí…
“Luí, respeita os 8 baixo do teu pai.” é aquela história do “pé de bode.” Você lembra, né?
Januário, era tinhoso, mas Luiz, também era. Ele, ficou alguns meses em Exu, mas, acabou voltando para o Rio de Janeiro. Foi quando gravou o seu primeiro disco, que apresentava, o grande sucesso das festas de São João… “Olha pro Céu,” de 1951.
Luiz, era o rei do baião. Ele, lançou o estilo no Brasil e além dos discos, dos programas de rádio que ele participava, também, fechou um contrato inédito de divulgação, com a marca: “Colírios Moura Brasil,” que patrocinou uma turnê de Luiz Gonzaga, por todo o Brasil.
A vida de Luiz Gonzaga, literalmente, era viajar por esse país, tanto, que ele, sofreu dois acidentes automobilísticos e em um desses, Luiz, perdeu um de seus olhos, que fora substituído por um olho de vidro. Fato, que acabou mudando seu conceito novamente, pois agora, além do tradicional traje de cangaceiro, Luiz, ainda se apresentava, com óculos escuros.
Luiz, se casou novamente, com “Helena,” uma fã, que passou a organizar sua vida financeira, mas, era muito ciumenta. Gonzaguinha, veio morar com eles, mesmo contra a vontade de Helena. Na pura maldade, ela, acabou contando ao garoto, que Luiz Gonzaga, não era seu pai, Pois, era estéril. Prova disso, é que adotaram “Rosa,” a filha mulher, que era o sonho de Helena. Quem assistiu o filme, “Gonzaga, de Pai para Filho,” sabe o quanto traumatizante, foi a vida do rapaz Gonzaguinha.
Em 1953, Luiz Gonzaga, fortaleceu o conceito e gravou um disco, chamado “A História do Nordeste.” Quando chegou nas lojas, em 1954, aconteceu algo inédito na indústria fonográfica brasileira. Pela primeira vez, um produto que evidenciava 100%, a cultura nordestina, se massificou e vendia como água nas lojas. Esse disco, revolucionou a história da música popular brasileira e nele, se encontra o que muitos consideram, a melhor música brasileira já composta. “Asa Branca,” o tema do episódio 16, do Clube da Música Autoral.
Luiz Gonzaga, era um exímio instrumentista. Eu, tranquilamente, o coloco no nível de “B. B. King.” Apesar de King, também ser um exímio guitarrista, ele, era econômico nas notas; seus solos, tinham momentos descompassados e cheios de lamentos, ao contrário de outros músicos do Blues, que dependiam de camadas instrumentais constantes e muitas vezes, sufocavam a melodia vocal. Tanto B. B. King, quanto Luiz Gonzaga, reconheciam e valorizavam, o poder da palavra. Após cantar um compasso com muita emoção, ambos, empunhando seus instrumentos, davam credibilidade a aquilo que haviam cantado. B. B. King, com um bend de guitarra e um vibrato único; Luiz Gonzaga, com o arpejo duetado de sua sanfona.
Levar o reconhecimento da música do Norte para o Sul, pode até parecer fácil, mas foi não. Luiz Gonzaga, o rei do Baião, quando faleceu em 1989, aos 76 anos, ainda levou o gosto amargo do preconceito, que até hoje, filhos e netos de nordestinos, que construíram o Sudeste, sofrem.
Luiz, sintetizou sua arte, de forma que poucos conseguiram. Ele, misturou o ritmo aos lamentos, sem perder as tradições e muito menos, a poesia. Asa Branca, é um poema.
Mas Luiz, não estava sozinho nessa composição, suas músicas, na verdade, sempre receberam severas críticas dos intelectuais da década de 50, época essa, considerada a fase de ouro da poesia brasileira, com o nascimento do cinema novo, a popularização das peças teatrais e o surgimento da bossa nova. Luiz, tinhoso que só, percebeu que precisava de um bom letrista, então, procurou o cearense “Humberto Teixeira,” que já estava estabilizado no Rio de Janeiro. Ele, era o famoso “homem que engarrafava Nuvens.” Era advogado, mas, ficou conhecido por compor sambas e marchinhas de carnaval. Luiz Gonzaga lhe disse:
– Preciso falar do meu sertão, da seca, do sofrimento do meu povo.
Humberto Teixeira, indagou Luiz:
– Mas esse é um tema popular?
E Luiz respondeu:
– Ainda não, mas vai ser.
A dupla, Humberto e Gonzagão, gravaram várias músicas, mas a mais famosa, com certeza, é a Asa Branca. Luiz, tocou a sanfona e balbuciou a melodia para Humberto, que não precisou de mais nada. Pegou uma caneta e um papel, e ele não escreveu, ele, concebeu a história de Asa Branca.
Nesse momento, em que eu escrevia o roteiro desse episódio de Asa Branca e pesquisava sobre a canção, fui interrompido por meu filho Samuel, que me perguntou:
– Pai, você está chorando?
Eu, tentei disfarçar e disse que não.
– Você está chorando sim! Olha Isa, o pai está chorando! Tá até escorrendo uma lágrima! (Isa é a minha filha)
Então, abri o jogo com eles:
– Ó, seguinte… o pai tá chorando sim, mas, é porquê o pai tá emocionado com a história da música.
Asa Branca, estava tocando, então, eu perguntei pra eles:
– Vocês conhecem essa música, não é? Querem entender sobre o que se trata? Sobre o que ela fala?
Em coro, eles responderam:
– Queremos!
– Então, sentem aqui no chão, que eu vou contar a história de Asa Branca.
– Pai, asa branca, é a história de um Anjo que tem a asa branca?
– Não, não. Asa Branca, é o nome de um pássaro, um pombo, que geralmente, vive ao lado de pessoas; é um pombo cinza, mas, que tem as asas brancas; por isso, o apelido de “Asa Branca.”
Assim que ganhei a atenção deles, comecei a história…
Era uma vez um moço, que olhava todo dia para o céu e pedia a Deus, para que chovesse. Ele queria voltar pro seu lar, mas era muita judiação, o que Deus havia feito com seu povo. Ele, queria voltar, mas sem chuva, não podia plantar.
o sertão, era um lugar pobre e muito quente. Pra vocês entenderem, o quão quente era aquele lugar, imaginem uma fogueira… sabem aquela fogueira de festa junina, de São João? A terra lá, ardia como uma fogueira. As vezes, nem dava para pisar no chão descalço. Era tão quente, que até as vaquinhas do moço,, por falta d’água, morreram e pra piorar, até o seu cavalo, que o ajudava a cuidar das vaquinhas e da plantação, morreu de sede também.
Mas, o pior dia pra esse moço, foi quando ele percebeu, que até as pombinhas da asa branca, haviam ido embora. Então, ele tomou uma atitude drástica… pegou nas mãos de sua esposa e disse chorando:
– Rosinha, guarda contigo meu coração… vou para o Sul e te mandarei dinheiro. Não chore mais; fica em paz, porque eu te asseguro, que assim que chover, eu voltarei.
E é por isso, que o moço, olha para o céu todo dia e pede pra Deus, que chova e assim, o verde volte a nascer no sertão.
– Entenderam porquê, o papai estava chorando? Essa, é uma história triste.
Aí, os meus filhos, quiseram ouvir mais histórias, como sempre, mas, eu precisava acabar de escrever o roteiro do Clube da Música…
Em 1953, quando Luiz Gonzaga, formou sua tradicional banda, o conjunto “Pé de Serra,” cujo as histórias, renderia um novo episódio do Clube, eles, entraram em estúdio para gravar Asa Branca, mas os músicos, não gostaram daquela música, pois, achavam que era uma música de pedinte; uma música, que era tocada em troca de comida, sabe? Gonzaga, concordou com eles, disse que sim, mas, não mudou uma vírgula se quer. Na verdade, Gonzaga e Humberto, não davam muito valor pra essa música, Asa Branca. Eles, nem se quer, imaginavam o que ia acontecer com ela.
Agora, quem mudou Asa Branca, foram os intérpretes que a regravaram. Asa Branca, tem mais de 400 versões oficiais, em vários idiomas, até em Japonês. Ouça só…
“Raul Seixas,” sempre se declarou influenciado por Luiz Gonzaga, tanto, que gravou Asa Branca, num medley, com a canção “Blue Moon.”
“David Byrne,” famoso músico escocês e fundador do “Talking Heads,” também gravou Asa Branca.
O sanfoneiro e compositor, “Dominguinhos,” que tocou por muitos anos ao lado de Luiz Gonzaga, um belo dia, fez uma revelação bombástica. Ele, disse que Asa Branca, não era uma música exclusivamente composta, por Luiz Gonzaga não. Na verdade, Januário, pai de Gonzaga, já a dedilhava no pé de cabra, antes mesmo do filho nascer. Januário, teria dito para Dominguinhos, que a melodia era dele e Gonzaga, havia pego emprestado.
Luí, Luí… respeita Januário, Luí.
No dia 2 de agosto, de 1989, consagrado por ter criado o baião, popularizado o forró, a quadrilha, o xaxado, o arrasta-pé e principalmente, por ter dado voz aos lamentos dos nordestinos e influenciado todos os músicos brasileiros, que nasceram após ele, Luiz Gonzaga, morreu; vítima de uma parada cardiorrespiratória, após longos 6 anos de luta contra um câncer na próstata.
Asa Branca, segundo a revista “Rolling Stone,” é a quarta melhor música brasileira de todos os tempos. Seu parceiro, Humberto Teixeira, viajou o mundo todo, recebendo prêmios em reconhecimento à essa obra musical. Vocês sabiam?
Luiz, respeitou Januário sim, também se desculpou com seu filho Gonzaguinha e para nós, deixou de presente, uma obra imensa, com 627 músicas gravadas e 266 discos. O Lamento do sertão, de Luiz Gonzaga, foi ouvido.
E é assim, com muito respeito a Luiz e principalmente, a todos os brasileiros, que nasceram no Norte do país e vieram fazer o Sul, um lugar melhor e mais alegre, que encerro 16º episódio, do Clube da Música Autoral.
E aí, bora interagir com o Clube? Se curtiu esse episódio, se tem uma história legal pra me contar, escreve aí, manda um recado pra gente. As melhores, serão lidas em um episódio extra, no fim dessa temporada.
O Clube, está no Facebook, no Twitter, no Instagram e no YouTube. É só procurar por: Clube da Música Autoral. É só começar a nos seguir, que você, já começa a fazer parte desse clube.
Quer nos ajudar nessa missão, votar nos próximos episódios ou ser um diretor do Clube? Acesse: clubedamusicaautoral.com.br/assine e seja um sócio, Assim como o Luiz Prandini, Caio Camasso, Henrique Vieira de Lima e Emerson Silva Castro. Seja sócio do Clube e apoie essa missão.
Não posso também deixar de avisar, que agora, o Clube, também faz parte do “Overcast,” uma rede de podcasts, que foge do padrão da podosfera, com programas de formatos diferentes e inovadores. Conheçam: overcast.com.br
Luiz Gonzaga, infelizmente se foi, mas ele, viveu o suficiente, para ver todo o reconhecimento de sua música, Asa Branca. E antes de partir, caprichosamente, nos deixou a conclusão. Em “A Volta da Asa Branca,” ele, narra o retorno do moço ao sertão, após a chuva chegar e consequentemente, aos braços de rosinha.
Meu nome, é Gilson de Lazari, e foi um prazer falar de música com você.
Até a próxima!