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Sim, esse texto contem spoilers. Se você ler mais um pouco não vai mais valer a pena jogar o jogo.Sério. O jogo é basicamente só história. É bem legal, o roteiro é muito bem escrito e vai te prender por algumas horas. Mas, realmente, é um jogo curto. Uma ideia bem interessante feita da maneira mais simples possível – e eu não gostaria que fosse de outro jeito -, mas que depois que você jogar uma vez, você não vai jogar de novo. Por isso o aviso de spoilers.

Agora vamos ao texto.

Acho que a gente finalmente chegou com os games no mesmo lugar que nós estamos com os filmes e com as séries de televisão. Nós entendemos eles o suficiente pra nos divertirmos com a subversão das mecânicas. Na tv nós temos shows como Community, que apostam em metalinguagem. Agora, nós temos um jogo que conseguiu desconstruir totalmente o gênero pra contar uma história.

A história de um trabalhador de escritório que um dia percebe que seus colegas desapareceram e resolve investigar. Você segue a diante ouvindo o narrador recitar suas ações e pensamentos, até que você finalmente fica livre e vence o jogo.

Mas aí é que está. Você não está sozinho. Basta contrariar o narrador pra perceber que ele não está apenas narrando a sua história. Ele é um personagem nesse universo. Um que está investido em contar aquela história em que você finalmente fica livre e vence o jogo… Mas qual seria a graça?

O jogo começa quando você tem a sua primeira escolha. São duas portas e o narrador diz de antemão que você escolheu a porta da esquerda. Nada te impede de ir pela porta da direita e, se você for, o narrador tenta remediar a situação. Quanto mais você tenta surpreendê-lo, mais hilárias as falas dele vão ficando.

Aos poucos o jogo vai fazendo você pensar. Sim, você tem a escolha de contrariar o narrador e fazer o eu próprio caminho, mas – como o próprio jogo deixa claro – também existe um roteiro para esse “desvio”. Qual realmente é a sua escolha?

E o jogo faz você pensar sobre o que é um jogo (e talvez sobre a sua vida), mas nunca de um jeito forçado. Às vezes você parece estar sendo castigado, às vezes é você que está castigando o jogo. Tudo é ridiculamente simples.

É um jogo, diabo.

Mas mesmo assim você está preso à narrativa. O jogo sabe disso e joga isso na sua cara algumas vezes. Você e o narrador se odeiam, se amam, mas a única verdade é que vocês precisam um do outro e o jogo sabe disso também. O jogo joga na sua cara o equilíbrio entre a sensação de liberdade e a necessidade de um objetivo.

E nesse momento eu lembrei das 20 horas que eu passei jogando Red Dead Redemption, ignorando as missões do jogo e apenas atirando em pássaros.

Lembrei também dos pequenos livros de “escolha a sua aventura” onde você virava as páginas, para a frente e para trás, escolhendo entre alternativas pré-determinadas, totalmente envolto naquele universo.

Por fim lembrei como era jogar RPG com os meus amigos. Eu como o mestre, narrando o encontro do grupo com um nobre que queria contratá-los.

Eu preciso da sua ajuda para levar minha filha em segurança até a…

“Eu vou matar esse cara.” O jogador já estava rolando o dado… 20. O nobre estava morto. Eu surgia com bêbado em uma taverna que…

“vou matar esse cara e roubar o machado dele.”

Mas por que você… 20. Ele estava morto. Meus jogadores matavam todos – TODOS – os NPCs que eu colocava no caminho deles. Depois de algum tempo eles reclamavam que não tinham objetivo nenhum e que o jogo estava chato.

Nós finalmente passamos por tudo isso. Por bons jogos, jogos ruins, jogos quebrados, jogos indies tão pretenciosos que acham que só porque tudo é areia você vai se emocionar… Jogamos tantos jogos que agora temos jogos que, assim como nós sabemos que tudo não passa de um jogo, eles sabem que nós estamos jogando um jogo.

É aí que o jogo começa a falar com você e não com o seu personagem.

Exatamente nesse ponto, quando o narrador resolve ignorar o personagem e passa a se dirigir a você, que ele te prende de novo. Não é mais a história do Stanley, é a sua história agora. É você com as escolhas falsas, é você apertando o botão, é você interagindo com o narrador. E por mais que você saiba que é um jogo, ele dá a volta e te prende de novo.

E você se diverte vendo suas próprias expectativas jogadas na sua cara. Quando tudo vai explodir e você tenta loucamente se salvar, quando você insiste em ter liberdade até ser deixado sozinho…Até quando você finalmente confunde o jogo.

É tão sutil que você nem percebe o momento em que o jogo ficou mais esperto que você e te prendeu por mais algumas horas, explorando e explorando, procurando por mais um final.

Já tinha visto algumas piadas que quebravam a quarta parede, um pouco de meta linguagem, mas nada tão esperto e consciente quanto esse jogo.

– Por Nigel Goodman (steam: nbvgoodman)