A Coluna Musical mais TURBO de todos os universos (Oferecimento Sapataria do Amigão) – #07

Eu gosto pra caralho de Placebo e por isso eu dava rolê de visual andrógino.

Não tem outro jeito de resumir. Sempre curti artistas que desafiavam noções pré estabelecidas de gênero. Começou quando vi o Prince pela TV, tocando seminu, no Rock In Rio 2 em 1991. Não era nada sexual. Era uma vibe de “pode isso, Arnaldo?”, em que eu não prestei tanta atenção na música porque não imaginava que fosse possível agregar todo um espetáculo visual à música sendo tocada. E o Prince botou pra foder, limítrofe entre figurado e literal.

Isso ficou muito bem enterrado até o Marilyn Manson aparecer pra mim em 1996, pegando o “Antichrist Superstar” emprestado com meu vizinho BOI. Meu brother Kiki já havia me falado sobre ele uns meses antes, mas o Kiki sempre foi um cara muito hiperativo; então era difícil reter o que ele dizia do alto do meu dispêndio adolescente de atenção.

Mas aí fui parar com o “Antichrist Superstar” em casa, e daí fui sacando toda a ARTE da coisa como um todo. A música era de foder, mas a arte da parada era impecavelmente enigmática. Claríssima, mas oblíqua. Fritei demais nessa vibe.

Como essa época da minha vida foi permeada por sentimentos românticos clássicos ligeiramente contrastantes com a tara habitual de um rapaz adolescente, acabei desenvolvendo um apreço por músicas que traduziam meus sentimentos de friendzone e cujas apresentações ofereciam desafio de gênero. E uma banda que fez isso muito bem, paralelamente ao Manson, foi o Placebo, capitaneado pelo joiado Brian Molko.

Enquanto o Manson fazia o serviço pelo lado extrospectivo, “me aceita ou vai tomar no cu!” no Placebo fazia o introspectivo com aquela criatura que parecia uma mina meio masculina e um cara muito feminino. Tudo ao mesmo tempo, cantando anasalado igual Geddy Lee e tirando um som de guitarra numa afinação esquisita (F A# D# G# C C).

(F A# D# G# C C)(F A# D# G# C C)(F A# D# G# C C)(F A# D# G# C C)

Marilyn Manson me afetou apenas nos desenhos que fazia nos cantinhos das páginas dos cadernos de escola. Placebo me fez chutar o balde e aderir a todo um visual. Com uns piercings.

Apesar de soar bonitinho e tranquilo, tem elementos que são pura angst. E de alguma forma, conectou perfeitamente com a vibe que era perene na época. A de que não tinha absolutamente nada pra fazer, mas ainda bem que tínhamos uns aos outros. E um pouco de acesso a equipamento musical minimamente decente.

Ainda naquela época eu afundaria um outro pedaço de mim em black metal (conto mais sobre isso depois), então eu também já curtia a ideia de deixar o cabelo crescer e dar rolê de visual TREVAS. Misturou em que eu saía de sobretudo igual o resto dos góticos; mas o meu era roxo tipo o do Prince em “Purple Rain”. Meu cabelo era meio “capacete”, então quando foi dando certo tamanho raspei tudo nas laterais e traseira e amarrei o topo como um samurai. Maquiagem era garantido, claro.

Deve ter foto disso em algum lugar. Eu era ainda mais gato do que sou hoje. E olha que as gata não resiste a um baixinho careca peludaço magricelo e barrigudo que parece que tem Progeria. Os cabelo encravado do peito estoura de pus e as calcinha desce na hora, tudo pingando.

Por fim, se o sobretudo já era roxo, as sombras e esmaltes eram verdes, azuis, laranjas. Uma saia preta pra acompanhar. Coturnos, mas nem sempre. Puta parada que rasga os tornozelos. Prefiro muito mais os mocassins confortáveis da Sapataria do Amigão.