Inicialmente as críticas foram negativas. Era algo novo na TV e eu descobri que quando se apresenta alguma coisa nova, ela demora para adquirir momentum. Quando a primeira temporada foi reprisada, de repente, críticas positivas foram surgindo por toda parte. Você precisa dar tempo para as pessoas se habituarem a algo novo. – John Cleese

Escrita por John Cleese e sua esposa Connie Booth, essa sitcom britânica teve doze episódios que foram ao ar entre 1975 e 1979. Ganhou três BAFTAS e foi nomeada a melhor série de TV britânica de todos os tempos pelo British Film Institute em 2000.

Fawlty Towers é uma série sobre as desventuras de Basil Fawlty (John Cleese), o esnobe dono de um pequeno hotel em uma cidadezinha litorânea da Inglaterra e suas relações com os hóspedes e sua equipe: sua esposa e sócia Sybill, a camareira Polly (interpretada por Conie Booth) e o garçom espanhol Manuel.

Os executivos da BBC não gostaram de Monty Python quando a série foi lançada e o mesmo aconteceu com Fawlty Towers. – John Cleese.

Bill Cotton, um dos chefes da programação de entretenimento da BBC na época, leu o roteiro do episódio piloto e não achou a menor graça. Poderia ter sido o fim de Fawlty Towers naquele momento, mas ele confiava que Cleese sabia o que estava fazendo e deu o sinal verde para a produção. Segundo Cotton, ele pode fazer isso pois estava na BBC. Os canais comerciais que baseam sua programação de acordo com os índices de audiência, nunca deixariam um programa de TV ser produzido baseando-se apenas no roteiro.

Felizmente a BBC não é um canal comercial e não precisam tremer junto aos índices do IBOPE. Eles podem se dar ao luxo de experimentar novas ideias e, com isso, criar produtos que se tornarão clássicos eternos. Por temerem qualquer coisa diferente e de risco, as redes de TV comerciais (o modelo padrão do negócio) possuem uma taxa muito menor de acerto no desenvolvimento de projetos que perdurem. A fórmula geral da indústria de TV (e cinema) parece ser:

  1. Copiar ou adaptar algo que já faz sucesso em outra mídia ou canal;
  2. Multiplicar isso até exaustão;
  3. Repita o processo.

Fawlty Towers foi fruto de um risco considerado padrão em uma rede de tv que é exceção no mundo.

Roteiro

Em uma época na qual roteiros eram criados entre quatro a dez dias, pela primeira foi permitido para uma série de comédia ter um tempo decente para ser escrita. Cada roteiro de Fawlty Towers era produzido em seis semanas. Duas a três semanas eram dedicadas por Cleese e Booth apenas ao argumento do episódio e as restantes eram dedicadas às falas e os detalhes gerais. Um detalhe importante é que um roteiro padrão de uma sitcom tem aproximadamente 65 páginas e cada roteiro de Fawlty Towers possuia no mínimo 140 páginas. Tudo isso tinha de se acomodar no mesmo tempo de uma sitcom padrão.

Produção

O tempo de produção era curto: cinco dias para ensaiarem (sem figurino ou exigências específicas de objetos em cena) e gravarem cada episódio semanalmente. No dia da gravação, os atores ensaiavam todo o episódio duas vezes, aguardavam a platéia se acomodar e finalmente gravavam o episódio em torno de apenas duas horas.

O ritmo das cenas precisava ser rápido também para acomodar o tamanho dos roteiros e uma das formas para cortar as gorduras era manter o ritmo das atuações de forma a ignorar as reações da platéia. John Cleese instruia os atores a não esperarem as risadas da platéria terminarem para continuarem com suas próximas  falas. Isso mantinha o episódio mais curto e dinâmico para os telespectadores que podiam ouvir mais do que a platéia do estúdio graças aos microfones.

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Tendo pouco tempo e dinheiro para as filmagens (mesmo na BBC os dramas tinham a prioridade de produção), os roteiros precisavam ser meticulosamente escritos. Hoje o paradigma é inverso. Temos produções ótimas ou exuberantes para roteiros medíocres ou mal acabados em vários canais. 

Um paralelo

Seinfeld foi série de comédia de maior sucesso nos EUA e teve tudo para ser cancelada. Uma premissa de série completamente fora do usual (“uma série sobre nada”) e um piloto que testou fraco com uma audiência teste antes de ir ao ar. Rick Ludwin, executivo da NBC que encomendou o piloto, teve de corajosamente insistir para que a série acontecesse. Rick, aconselhado por alguns executivos, lutou pelo programa com o presidente da NBC, relocando custos de outra programação para conseguir verba suficiente para míseros quatro episódios. Até hoje Seinfeld tem o recorde da menor produção em episódios de uma sitcom nos EUA.

A Fórmula

Mesmo com uma premissa convencional (uma série se passada em um hotel), executivos da BBC diziam que esse ambiente seria claustrofóbico e que a série não funcionaria; Mesmo com críticas negativas ruins, a série ganhou uma audiência e sucesso por toda Europa; Mesmo com apenas doze episódios, a série influenciou hits como Cheers e 3rd Rock From The Sun nos Estados Unidos; Mesmo tendo pouco dinheiro, Cleese supervisionava a direção e edição dos episódios para ter certeza que faria o melhor trabalho possível. E essa deveria ser a mentalidade de todos os envolvidos em qualquer produção para TV ou não.

A fórmula básica para uma série de comédia prosperar parece ser:

Excelentes roteiros + boa direção + melhor ainda edição + compreensão de que se você é um produtor de TV, provavelmente não entende de comédia + coragem para se produzir algo novo, mesmo que as críticas iniciais sejam negativas.

Hoje Jerry Seinfeld possui a carta de rejeição dos executivos da NBC emoldurada em sua parede. John Cleese fez o mesmo com a carta que recebeu da BBC quinze anos antes.

Com o passar dos anos eu percebi que a maioria das pessoas não sabe do que falam. – John Cleese.