Há muitos e muitos anos, vi um filme que muito me incomodou. Na verdade, o longa incomodou todo mundo, porque foi uma porcaria mesmo. Era Howard, o Pato, versão para o cinema de um interessante personagem da Marvel. Não funcionou por vários motivos. Nem lembro exatamente quais, pois foi no longínquo ano de 1986. Só lembro que implicava demais com o fato de o pato falar. Eu sabia que o personagem era inteligente, que vinha de outro planeta e tal. Mesmo assim, só me vinha o pensamento “Esse pato não pode falar como humanos! Ele não tem a boca no formato necessário para emitir nossos fonemas!”.

Desde aquele filme, peguei implicância mortal por animais que conseguem falar sem ter boca humana, não importavam os poderes mágicos ou avanços cerebrais que tivessem. Um detalhe muito banal que me impediu de curtir plenamente vários filmes que tinham tudo pra me agradar em cheio. Foi o caso de MIB – Homens de Preto. Considero um filmaço. Mas sempre me perturba o pug Frank. A cena do cachorro falando é ótima, mas há sempre uma voz baixinha na minha mente sussurrando “ele não tem a boca no formato para falar como um humano, cara”. E aí eu paro de gostar do filme por alguns segundos.

Este ano há três filmes que com bichos falantes sendo lançados, que comentarei por ordem de importância para mim:

– Guardiões da Galáxia: Quero muito ver, pois é o grande passo da Marvel para introduzir seus personagens espaciais no cinema. OK, Thanos já tinha aparecido no primeiro Vingadores. OK de novo, os asgardianos já estão sendo mostrados meio como alienígenas, não deuses. Mas é agora que vamos ver várias espécies diferentes. Vai ser legal, exceto pela voz na minha mente que vai me atrapalhar a ver Rocket Racoon. “É um personagem maneiríssimo, mas um guaxinim não tem a boca no formato para falar como humano, amigão”. E aí vou deixar de gostar do filme por vários segundos.

– Planeta dos Macacos: O confronto: Continuação do filme que mostrou a origem dos macacos inteligentes mostrados na saga lançada em 1968. O anterior, de 2011, me arrebatou não só pela tensão constante, mas por resolver a palhaçada do terceiro filme (1971), que dizia que o primeiro macaco inteligente surgiu em nossos tempos porque veio do futuro em que os símios são dominantes. É, paradoxo temporal. Com Planeta dos Macacos: A Origem tudo muda e vemos que houve um tratamento científico para alterar o cérebro do primeiro macaco inteligente, César. Sensacional. Ainda assim, quando César emitiu a primeira palavra, veio a voz em minha mente “Só seu cérebro mudou, mas um macaco continua não tendo a boca no formato para falar como humano, rapaz”. Nessa sequência, César deve falar bem mais e vou parar de gostar do filme por muitos segundos.

– As Tartarugas Ninjas: Tô nem aí. Nunca curti esses personagens. Não acho nada interessante a ideia de tartarugas adolescentes mutantes ninjas treinadas por um rato e maníacas por pizza. Tá, a parte das pizzas é legal, admito. Mas ainda assim, não consigo simpatizar com os bichos e talvez só veja o filme por motivos profissionais. E o que mais me aborrece é que aquela maldita voz na minha mente deve me dizer “Agora sim. Essa tartaruga é totalmente mutante, até sua boca adquiriu o formato para falar como humano, bróder”. E vou gostar do filme por alguns segundos.