É tempo de futebol. Mas essa coluna é sobre cinema. Então falarei sobre um grande clássico da sétima arte, um verdadeiro campeão de bilheteria que formou filas em cinemas de todo o mundo, sendo uma unanimidade de crítica e público: “Fuga Para a Vitória”. Bom, eu normalmente verifico informações antes de discorrer sobre uma produção. Então já ia me certificar se esse filmaço estrelado por esportistas como os boleiros Pelé, Bob Moore e Ardilles, e o pugilista Sylvester Stallone foi mesmo esse sucesso todo. Mas decidi que não farei isso. Quero preservar esse filme como ele está em minha memória, impresso em meu cérebro depois que o vi apenas uma vez, quando criança, na televisão, nos longínquos e perdidos anos 80. E vou contar a história desse longa exatamente como me lembro dela.

Segunda Guerra Mundial. Os nazistas mantêm em um campo de concentração alguns soldados aliados. Entre eles está um capitão inglês (Michael Caine) que foi jogador profissional antes da guerra. Ele inclusive foi capitão da Seleção Inglesa e ganhou sua patente no exército automaticamente por causa disso. É assim que funciona. Se ele fosse artilheiro do time, seria um soldado da artilharia na guerra. Inclusive houve um goleiro que teve que usar arco e flecha no conflito e acabou morrendo logo no início do filme. É o que lembro.

Um militar nazista, diretor do campo, chega pra esse capitão e propõe uma partida entre os soldados alemães e uma seleção de prisioneiros. Se os nazis ganhassem, provariam que os arianos são superiores e ascendentes de todo mundo. Se os aliados vencessem, ganhariam um prêmio legal. A liberdade? Não, o que a gente vai fazer com essa tal liberdade? A premiação era algo melhor. Prostitutas polonesas de um campo de concentração vizinho. É o que lembro.

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O capitão inglês topa formar a equipe, porque está na seca e sente que pode vencer os nazis. Afinal, time em concentração é meio caminho para a vitória. Além disso, um dos prisioneiros é um brasileiro interpretado por Pelé. Esse personagem é sensacional. Fugiu do Brasil quando sentiu que Vargas ia apoiar Hitler e foi lutar ao lado dos ingleses, cozinhando e fazendo café para a Marinha Real em um porta-aviões. Quando capturado, se negou a gritar “Heil Hitler” e teve parte de sua língua cortada. Passou então a escrever lindos versos, pois calado é um poeta. Por conta disso, Pelé fala bem pouco no filme. E na versão que passou na TV brasileira, o atleta não dublou seu próprio personagem, me causando grande revolta. É o que lembro.

O inglês tem à sua disposição também um argentino interpretado por Ardilles. Eu não conhecia esse craque e me perguntava por que não escalaram Maradona para o filme. Seu personagem seria muito mais interessante: um soldado que não respeitava ninguém, traficava charutos com os alemães, sacaneava Pelé e ainda dava água batizada para os nazistas. Mas aí ficou o Ardilles mesmo, que não fazia nada demais. É o que lembro.

Mas peraí! O filme é americano! Precisava de um ianque ajudando essa turminha do barulho. Mas nos EUA, só mulheres e cucarachos sabiam jogar futebol nessa época. #Comofas? (Ops, acabei de checar que não se usa mais essa gíria na internet, felizmente). Simples. E genial. Um dos pontos altos do filme. O personagem de Stallone pede pra jogar, sentindo que esse time tá na verdade planejando fugir durante o jogo (ele viu o título do filme, talvez). O capitão britânico fala “Tá maluco, rapá? Tu é americano, não tem inglês suficiente pra saber que football é com o pé!”. Então Stallone discute com ele algo sobre o futebol americano ser superior por usar mãos, que é a parte do corpo que nos diferencia dos bichos. O inglês rebate dizendo que o povo dele só pode ser doente por cultuar três esportes (futebol americano, basquete e baseball) e nenhum deles ser o preferido do resto do mundo. Até que Bobby Moore chuta uma bola em direção à cara do Stallone e ele segura a pelota. O inglês se toca de que o sujeito pode ser um grande goleiro, já que americano adora segurar bolas, e o escala no gol. Assim ele resolve dois problemas, porque ninguém queria jogar no gol (iam revezar a cada bola que entrasse) e cumpre a cota de herói americano no filme. É o que lembro.

Aí chega o dia do grande jogo. Eles estão preparados para vencer e ainda têm um plano para fugir pelo esgoto do vestiário do estádio no intervalo, com ajuda da resistência francesa. Sabe-se que os franceses são especialistas em fugas na guerra. No primeiro tempo, os alemães, jogando de botas e usando o bigodinho de Hitler como uniforme, começam a golear. Pelé se machuca e quebra o braço no jogo. Quando está sendo retirado de maca, percebe nazistas sendo racistas, imitando pantera na plateia. Naquele tempo, racistas usavam panteras para tentar humilhar pessoas de cor, não macacos, pois achavam os símios muito evoluídos. Preferiam comparar pardos e negros a animais que andavam de quatro e eram menos próximos dos humanos. É o que lembro.

No intervalo, em vez de fugirem, os aliados ficam tentados a voltar ao campo (de futebol, não de concentração, duh!) e virar a partida. Mas como, se o brasileiro, maior craque do time, está seriamente machucado? O personagem de Pelé (Edson, se não me engano) então fala que vai entrar em campo com o braço amarrado ao corpo e provar que os nazistas não são racialmente superiores coisíssima nenhuma. O argentino tem vontade de falar que concorda um pouco com os nazistas nesse ponto, mas fica na dele. O capitão inglês desiste da fuga, apoiado por Stallone, que acabou se apaixonando por esse esporte surpreendentemente apaixonante e imprevisível, no qual uma partida pode ser virada por um time todo quebrado e sofrendo uma desvantagem de quatro gols. O placar estava 4 a 1 pros nazis racistas. É o que lembro.

Os aliados voltam ao campo, Pelé dá um show mesmo com o braço amarrado. O gol da vitória é feito pelo brasileiro, de bicicleta, em câmera lenta. A torcida mexicana que se alistou na guerra só para assistir ao jogo vai à loucura e invade o campo gritando “Brasil! Brasil! Brasil!”. Os nazistas não sabem o que fazer naquela confusão. O time dos aliados aproveita e vai fugindo. Mas um mexicano agarra Pelé e começa a tirar sua roupa, deixando o brasileiro só de cuecas. Stallone vem correndo e dá um soco na cara do mexicano, uma verdadeira Patada do Sul, gritando “Saia daqui, sua mísera barata! Você só serve para lavar meu carro! Deveria ser mantido afastado de meu país por um grande muro!”. Um nazista ouve a ofensa e se emociona, facilitando a fuga para a vitória da equipe. Fora do estádio, a resistência francesa recebe o escrete e leva todo mundo para longe dos alemães. Filmaço.É o que lembro.

UPDATE: Fui ver qual era o nome do diretor e me surpreendi ao ver que era John Huston. Acabei lendo mais um pouquinho e, aparentemente, o filme não foi um sucesso. Tem apenas nota 6,6 no IMDB. E Pelé não vive um brasileiro, mas um cara de Trinidad & Tobago. E acho que viajei na relação entre futebol e as patentes inglesas. E também no lance da pantera. Mas parei de pesquisar para não estragar a bela memória que tenho dessa sensacional produção. Bola pra frente, Brasil! Rumo ao hexa!