Diante das críticas negativas, fui assistir a “Transcendence” achando que daria um texto engraçado para esta coluna. Mas não consegui me divertir da forma que rola com um filme trash. Até porque “Transcendence” não é uma porcaria digna de risos. É apenas um longa com problemas. E você não ri do seu primo que tem problemas e suja as calças nas reuniões de família. Se ri, preciso te dar o toque sobre como isso é errado.

Mas voltando ao filme, fiquei realmente triste por ver um tema tão interessante não render uma trama mais envolvente. Podia sacanear a maré de azar de Johnny Depp, mas só me vinham os erros dessa interessante história sobre um cientista que tem sua mente transplantada para um supercomputador com acesso à internet, se tornando onisciente. A ideia era que o personagem se tornava assim um novo Deus. Mas aí que está a ironia! Foi por causa de outro “personagem Deus” que tive o único momento divertido no cinema. Ri alto e sozinho, causando estranheza nos seres comedores de pipoca ao meu lado.

Em determinada cena, o cientista-CPU mostra a seus convidados como consegue curar um paciente cego de nascença. O deficiente recebe uma aplicação de nanorrobozinhos nos olhos e seu globo ocular se regenera. A primeira coisa que o ex-cego vê em sua frente é o rosto maravilhado de Morgan Freeman, que interpreta o mentor do personagem principal. E o que o sujeito que foi curado fala diante de sua primeira visão? “Ó, meu Deus!”. Na mesma hora eu gargalhei. Diante do silêncio do resto da plateia, tive vontade de falar “Galera, vocês não perceberam que isso foi uma piada? O cara viu o Morgan Freeman e o chamou de Deus! O Morgan Freeman é Deus em outro filme, gente!”. Mas fiquei na minha, é claro. Até porque nem tenho certeza de que foi piada dos produtores ou se foi culpa dessa minha maldição de procurar humor nas entrelinhas da vida.

O fato é que pra mim Morgan Freeman é o melhor Deus que o cinema já mostrou. A primeira vez que Freeman interpretou o Criador foi em “O Todo Poderoso”, em 2003. Depois repetiu o papel em “A Volta do Todo Poderoso”, em 2007. Eu realmente torço para que ele volte a ser Ele, pelo menos mais uma vez. Só para empatar com o Deus cinematográfico do passado, George Burns, que fez o papel três vezes, de 1977 a 1984, com “Alguém Lá em Cima Gosta de Mim”, “A Menina que Viu Deus” e “O Céu Continua Esperando”. Por que eu torço pro Freeman bater Burns?

Burns é um velhinho. Nunca gostei de imaginar Deus como um velhinho fracote. Eu já acho errado desenharem o Cara com barba de velho e roupas da antiguidade. Por que Ele usaria uma toga?

– Porque ele é antigo, Ulisses!
– Pô, então vamos desenhá-lo vestido com peles de animais, pois Ele já existiria no tempo dos homens das cavernas, ora!
– Ah, mas Deus não usaria peles de animais, pois ele é bom e não mata bichinhos.
– Opa. Deus mata bichinhos e até crianças, todos os dias. Mas mesmo que não seja ele, apenas um funcionário que ele chama de Morte, Deus é poderoso o suficiente para criar uma pele do nada, sem precisar fazer nascer e morrer um tigre.
– Verdade, Ulisses. Você está certo mais uma vez. Incrível como faz isso.

Pois é, eu geralmente venço embates com meus amigos imaginários. Mas isso nem importa agora. A questão aqui é que Deus não precisa ser um velho decrépito com óculos enormes. Dane-se que Burns era um ancião fofinho. Tô nem aí. Defequei. Pra mim, não serve como Deus. Mas também não acho que o Criador tem que ser jovem. Não porque os jovens são estúpidos. Mas porque Deus tem que ter moral diante de Jesus. Como o Nazareno vai respeitar um Cara que parece ter a idade dele? Tem que ser mais velho, mas não caindo aos pedaços. Daí me vieram com Morgan Freeman. Ótimo. Tem idade, tem aparência digna, impõe respeito… Olha, eu gosto de fazer a linha daltônico étnico, sem querer ver a cor das pessoas. Mas pro diabo com minha filosofia de vida. Aqui nesse texto, não dá pra ignorar que Freeman é negro. E eu acho maneiríssimo imaginar Deus como negro, só para irritar os racistas.

– Um Deus vindo de uma minoria étnica não é estranho, Ulisses?
– Jesus era judeu.
– Errr… Você tem razão aí.
– E tem mais: como Deus teria feito o homem à sua imagem e semelhança, e a raça humana surgiu na África…
– Então Deus seria realmente negro! Você me convenceu de novo, Ulisses!

Eu já esperava mais essa vitória, devo confessar. Em todo caso, é disso que estou falando. Não houve um Deus mais provocador que Freeman. Quer dizer… Bem… OK, na comédia “Dogma”, dirigida por Kevin Smith em 1999, Deus foi vivido por Alanis Morissette. A cantora interpreta um Deus mudo, que não solta uma palavra. Boa jogada, Kevin. Mas ainda prefiro Freeman. Até porque ele foi humilde, não começou como Deus do nada. Ele fez um estágio antes. Basta lembrar seu papel em “Impacto Profundo”, de 1998. Freeman interpreta o presidente dos Estados Unidos. Uma ficção-científica bem mais contundente naquela época, dez anos antes de Barack Obama concorrer ao cargo. E três anos antes de David Palmer, em quem votarei para o cargo de novo Deus no cinema depois que Freeman morrer.

Por Ulisses Mattos